III.2 - A história dos dogmas: a Igreja busca a fidelidade à Palavra e garante o Reino como dom comunitário

A encarnação de Jesus e a experiência do Espírito Santo em Pentecostes trouxe consigo uma séria questão teológica em relação à crença judaica no Deus Único: Jesus também é Deus? O Espírito Santo também é Deus? Se os dois também o são, então o Deus Único não existe e sim três Deuses?
O Antigo Testamento afirma que Iahweh é o Deus uno e único (cf. Dt 6,4).
Lembramos que, na história de Israel, Deus vai-se revelando como Pai de seu povo eleito. Ao contrário de outras religiões que também designavam Deus como Pai, no judaísmo a paternidade divina e a filiação de Israel são compreendidas como experiência concreta de um ato salvífico operado na história e não dentro de uma motivação mitológica. A escolha de Israel feita por Deus supõe que Ele seja o Senhor de toda a realidade, o Pai que criou todas as coisas, o Fundamento de tudo. Assim, a escolha de Israel e a idéia de aliança entre Iahweh e seu povo remete-nos à idéia da criação.
No Novo Testamento, a palavra Pai deixa de ser uma qualidade de Deus e passa a designar o próprio Deus. Essa nova compreensão parte da relação de Deus com seu Filho, Jesus Cristo, expressando a realidade de Deus em sua verdade íntima. A locução “Abba-Pai” exprime o modo como Jesus viveu o seu relacionamento com Deus, operando uma revolução nas idéias sobre Iahweh, uma vez que parece, em sua simplicidade, desproporcional à grandeza do que nele se revelava.
Na revelação neotestamentária, Jesus Cristo, enquanto Filho de Deus, pertence à essência divina eterna: “Se me conheceis, também conhecereis a meu Pai, Desde agora o conheceis e o vistes. (...) Quem me vê, vê o Pai. (...) estou no Pai e o Pai está em mim” (Jo 14, 7a.9c.10b). Após a Páscoa, a participação de Jesus no poder de Deus será explicitada como obra do Espírito Santo.
Embora não houvesse ainda uma teologia trinitária elaborada, a revelação da Trindade parece estar, desde a origem da Igreja, professada como fé. Isso se verifica, por exemplo, nos escritos paulinos: “A Graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós!” (2Cor 13,13). A Igreja pós-apostólica tinha uma clara consciência da estrutura trinitária na qual a realidade cristã da salvação se articula (cf. Primeira Carta de Clemente, escritos de Inácio de Antioquia e de Atenágoras).
Mas foi na práxis vivida da Igreja, sobretudo o Batismo (cf. Didaqué e Justino) e a Eucaristia, que a confissão trinitária mostrou sua inteira validade. Com o tempo, a regra da fé se transformou no que conhecemos como Símbolos da fé.
Ainda na Igreja pós-apostólica, encontramos uma estrutura trinitária nas eplicleses, na conclusão das orações e nas doxologias: a Igreja se dirige sempre ao Pai pelo Filho no Espírito Santo.
Quando surge a primeira doutrina trinitária, esta não é fruto de especulação, mas de uma liturgia e de uma doxologia aprofundada (cf. Basílio em Sobre o Espírito Santo). Os primeiros passos para essa doutrina foram dados quando a fé cristã se confrontou com a gnose e com a doutrina helenista e, mais tarde, no âmbito eclesiástico, com o debate levantado por Ário. As principais heresias foram:
· Monarquismo dinâmico: Jesus seria um homem sobre o qual baixou o Espírito Santo por ocasião do Batismo (cf. Cerinto, ebionistas, Teodoro de Bizâncio, Paulo Samósata);
· Monarquismo modalista: Pai, Filho e Espírito Santo são três modos de manifestação da mesma pessoa – Deus agiria como Pai na criação, como Filho na redenção e como Espírito Santo na Igreja (cf. Noeto, Práxeas, Sabélio);
· Subordinacionismo: Jesus foi um ser perfeitíssimo, cheio do Espírito, mas permanece subordinado ao Pai, que o criou e adotou ( cf. Ário);
· Triteísmo: afirma a distinção não só de pessoas, mas também da divindade, resultando na afirmação da existência de três deuses.
Ante tais heresias, a doutrina trinitária foi sendo elaborada, como já dito anteriormente. A fim de evitar que se incorresse em erros doutrinários infiéis à Palavra de Deus e que pudessem promover divisões dentro da comunidade de fiéis, a Igreja foi, ao longo de sua história, estabelecendo uma série de dogmas
[1].

[1] Um dogma passa a existir quando a Igreja toma consciência, de modo definitivo, de sua fé sobre determinado ponto e reconhece que a afirmação anunciada deverá ser mantida para sempre e obrigatoriamente. Não se trata de proclamar como verdade de fé o que não o era antes; mas é a tomada de consciência de que essa verdade anunciada sempre pertenceu, de algum modo, à fé da Igreja, verdade essa que faz parte da revelação divina.

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