III. A Igreja-comunidade: Sacramento do Reino de Deus
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III.1. - “Mas tudo eles tinham em comum”: origem e natureza da Igreja

Uma das passagens mais significativas do Novo Testamento é a descrição, no livro dos Atos dos Apóstolos, da primeira comunidade cristã, que ocorre em duas passagens:
· “Eles mostravam-se assíduos ao ensinamento dos apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações. Apossava-se de todos o temor, pois numerosos eram os prodígios e sinais que se realizavam por meio dos apóstolos. Todos os que tinham abraçado a fé reuniam-se e punham tudo em comum: vendiam suas propriedades e bens, e dividiam-nos entre todos, segundo as necessidades de cada um. Dia a dia, unânimes, mostravam-se assíduos no Templo e partiam o pão pelas casas, tomando o alimento com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus e gozavam da simpatia de todo o povo. E o Senhor acrescentava cada dia ao seu número os que seriam salvos” (At 2, 42-47);
· “A multidão dos que haviam crido era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum. Com grande poder os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor, e todos tinham grande aceitação. Não havia entre eles necessitado algum. De fato, os que possuíam terrenos ou casas, vendendo-os, traziam os valores das vendas e os depunham aos pés dos apóstolos. Distribuía-se então, a cada um, segundo a sua necessidade” (At 4,32-35).
A descrição dessa primeira comunidade cristã apresenta a experiência cristã sendo vivida comunitariamente, rompendo com as estruturas sociais excludentes e discriminatórias então em vigor. A universalidade da pregação evangélica dos apóstolos já foi vista na última parte do capítulo anterior, ao citarmos algumas passagens dos Atos.
Algo que chama a atenção de todos os historiadores é a espantosa rapidez com que a “Igreja” cresceu: em cerca de vinte anos, de umas poucas pessoas na Palestina, ela se espalhou pelo mundo romano. Mas é preciso lembrar (e isso torna ainda mais admirável esse rápido crescimento) que não existia Igreja como organização. Muitos dos convertidos eram judeus ou gentios convertidos ao judaísmo, que tomavam parte do culto judeu nas sinagogas locais ou mesmo no Templo e que se encontravam com aqueles que acreditavam em Jesus. Mas logo uma organização faz-se necessária, devido ao crescente número de cristãos (cf. At 6,1ss).
Inicialmente, as comunidades eram estruturadas na pluralidade de carismas (cf. 2Cor 12). A Igreja vai-se configurando a partir dos ministérios que vão-se criando de acordo com a necessidade das comunidades. No capítulo 6 dos Atos dos Apóstolos, temos, por exemplo, o surgimento do acólito para atender às viúvas helenistas, que se sentiam esquecidas na distribuição diária, uma vez que, devido ao crescente número de discípulos, os apóstolos não tinham condições de atender a todos e não julgavam conveniente abandonar a pregação da Palavra de Deus (cf. At 6, 1-2). E as necessidades das comunidades vão determinando a criação de novos ministérios. Assim, inicia-se a passagem de uma comunidade estruturada na pluralidade de carismas para a concentração de funções nos cargos que presidem a comunidade, tendência que se confirma nos século II e III.
Ainda em relação à rápida difusão do cristianismo, esse êxito deve-se ao fato de o cristianismo oferecer elementos de solidariedade e integração social a muitas pessoas que vivem na periferia das cidades do Império Romano. Há o que podemos chamar de “eclesiologia da fraternidade” (cf. 1Pd 2,17).
No Novo Testamento, o termo mais importante e mais freqüente para falar do “povo de Deus reunido” é “ekklesia”, termo esse que tem suas origens no Antigo Testamento e que revela em si mesmo o aspecto comunitário da Igreja nascente. Outros termos, como “santos”, “chamados”, “Corpo de Cristo” e outros tantos mais também evidenciam uma dimensão sócio-comunitária.
Nos escritos de Paulo, a dimensão eclesial da fé é acentuada. A Igreja do Novo Testamento, para ele, não está mais fundamentada na descendência e na herança de Abraão, mas no cumprimento das promessas feitas a Abraão e na fé em Jesus Cristo. Suas cartas têm, em geral, destinatários comunitários e tratam de questões comunitárias.
Para a Igreja apostólica, era impensável um cristianismo individualista, independente da comunidade. O seguimento de Cristo só podia ser pensado no seio da comunidade dos fiéis unidos ao Senhor, para não se correr o risco de acontecerem deformações individualistas de Deus. O teólogo Álvaro Barreiro, na obra “Povo Santo e Pecador”, afirma que “sempre que o homem busca Deus isoladamente e o adora isoladamente, como se fosse uma propriedade privada, acaba encontrando e adorando um deus feito à sua medida, à sua imagem e semelhança; ou seja, um ídolo feito pelas mãos dos homens. Ora, os ídolos são impotentes para libertar e salvar. De uma ou de outra maneira acabam escravizando e devorando seus adoradores”
[1]. De certa forma, é o que aconteceu com Simão, o mago, que quer comprar o dom do Espírito para atender às suas vaidades pessoais (cf. At 8, 9-24).


[1] BARREIRO, A. Igreja, povo santo e pecador. São Paulo: Loyola, 2 ed, 2001. p. 59

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