II.4 - O Espírito é doado para levar à consumação comunitária do Reino

Durante a última ceia de Jesus com seus discípulos, narrada por João, o Senhor disse a eles: “é de vosso interesse que eu parta, pois, se eu não for, o Paráclito não virá a vós. Mas se eu for, enviá-lo-ei a vós. (...) Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à verdade plena, pois não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas futuras” (Jo 16, 7b-c.13).
Essa promessa de Jesus, segundo as Sagradas Escrituras e a Tradição mais aceita
[1] deu-se no dia de Pentecostes. No entanto, o Espírito Santo teve uma presença marcante em toda a vida de Jesus, como a terá também nas comunidades que seguem o Cristo. O Espírito está junto de Jesus, inspirando-o sempre (cf. Lc 3,22; 4,1-14), e o levando para junto dos pobres, dos doentes, dos excluídos, dos injustiçados, dos pecadores. É o Espírito que o unge, para que Jesus realize sua missão de levar a Boa Nova a essas pessoas, conforme afirma o próprio Jesus, no início de sua vida pública, ao citar a passagem do profeta Isaías na sinagoga de Nazaré: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a remissão aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor” (Lc 4,18-19), e afirmar em seguida: ”Hoje se cumpriu aos vossos ouvidos essa passagem da Escritura” (Lc 4,21b).
Essa missão de Jesus é passada, no dia de Pentecostes, à comunidade, representada inicialmente pelos discípulos de Jesus (cf. At 1, 13-14). Cabe a ela, agora, levar o Reino à sua consumação comunitária. Assim como o Espírito agira em Jesus, ele se faz presente no início da pregação do Evangelho nessa primeira e minúscula comunidade reunida em Jerusalém, na “sala superior, onde costumavam ficar” (Lc 1,13a). A comunidade não fica fechada em si, mas, ao contrário, se abre a gente de toda parte (cf. At 2, 5-11; 10, 44-48). O Espírito vai dirigindo os discípulos e apontando os novos caminhos que a Palavra vai agora trilhar, fora do restrito mundo judeu: Filipe vai anunciar a Boa Nova na Samaria (cf. At 8,5ss); a Palavra será levada à África pelo eunuco batizado por Filipe (cf. At 8,26ss); Pedro evangeliza pagãos (cf. At 10, 19ss).
Os próprios elementos da narrativa de Pentecostes nos Atos dos Apóstolos (At 2, 1ss) expressam a passagem de uma comunidade fechada para uma comunidade aberta. Pentecostes pode ser visto como um divisor de águas na consumação comunitária do Reino. Em relação ao aspecto temporal, passa-se de um período que está-se acabando (“Tendo-se completado os dias” – v.1) para um novo começo e um novo tempo que se abre ao futuro (“e começaram” – v. 4); espacialmente, deixam o espaço fechado para um espaço aberto; de uma atitude passiva (“estavam todos” – v. 1) passa-se a uma atitude ativa (“Pedro, então, de pé” – v.14); de um pequeno grupo reunido (cf. v. 1), passa-se ao anúncio a pessoas de todas as nações e que se achavam em Jerusalém (cf. v. 5.9-11).
Muitos exegetas vêem a narrativa de Pentecostes como uma anti-Babel
[2]. Aqui, ao contrário do que acontece em Gn 11, são nomeados os povos mais diversos; com isso, podemos compreender tanto a universalidade da mensagem evangélica como também essa evangelização não suprimindo as culturas, e sim se realizando por meio delas: “(...) cada qual ouvia falar em seu próprio idioma” (At 2,6b); “como é que os ouvimos falar, cada um de nós, no próprio idioma em que nascemos?” (At 2,8). Esses exegetas compreendem, assim, que a comunidade iniciada no dia de Pentecostes deve ser um lugar de diálogo, de encontro, de comunicação e não de opressão sócio-cultural-político-religioso. O Espírito parece indicar que a comunidade agora presidida e guiada por ele, segundo a promessa de Jesus, deve ser um lugar de comunhão, de unidade (na diversidade das culturas), de acolhimento de todos os povos.
A leitura dos Atos dos Apóstolos nos mostra que é o Espírito Santo que capacita a abertura dos seguidores de Jesus aos novos desafios, possibilitando, ainda, o testemunho corajoso e ousado de Jesus Cristo, como o é o discurso de Pedro, logo após o Pentecostes (cf. At 2,14ss), a pessoas de todos os lugares que ali se encontravam (cf. At 2, 5-11), mas que deve ser levado até os confins do mundo (cf. At 1,8).
O testemunho de Jesus Cristo por seus discípulos é, como missão, levado a todos, sem exclusão de ninguém, mas a conversão exige uma vivência comunitária da fé, que se inicia com o batismo: “Aqueles, pois, que acolheram a sua palavra, fizeram-se batizar. E acrescentaram-se a eles, naquele dia, cerca de três mil pessoas” (At 2,41). E essa vivência comunitária gira em torno de 4 principais elementos, que podemos dizer serem os principais elementos da comunidade ideal: o ensinamento dos apóstolos a respeito de Jesus, a comunhão fraterna, a fração do pão e a oração comum (cf. At 2,42).
Interessante notar nos relatos finais dos Evangelhos e nos Atos dos Apóstolos que, inicialmente, ninguém planejou a Igreja. Os Evangelhos mostram a desilusão dos discípulos após a morte de Jesus, pois o que acontecera com o Mestre não era o que esperavam. Mesmo após a Ressurreição, havia medo e apreensão entre eles. No entanto, em Pentecostes “nasce a Igreja”, não como obra humana, mas como obra de Deus. O Espírito sopra uma nova vida, que lhes dissipa o medo e a apreensão. E essa nova vida inspirada pelo Espírito conduz à vida comunitária
[3], onde se pratica o amor a Deus, aos irmãos e ao mundo.
O mesmo livro dos Atos e as várias cartas paulinas nos mostram que os membros das comunidades eram muito diversos, mas tinham em comum o fato de terem suas vidas modificadas pelo Espírito Santo. Portanto, o mesmo Espírito Santo, que a todos inspirava, era o que unia a comunidade e a consuma.


[1] Fala-se em “tradição mais aceita”, pois muitos consideram a doação do Paráclito por Jesus no momento de sua morte, quando grita, no alto da Cruz: “Tudo está consumado. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito” (Jo 19,30b). A nota b da Bíblia de Jerusalém, referente a este versículo, diz: “o último suspiro de Jesus, prelúdio da efusão do Espírito”.

[2] Sobre o episódio da Torre de Babel, ver parte 3 do capítulo I deste trabalho.

[3] Nota-se que a descrição de Pentecostes e do discurso de Pedro encontra-se no mesmo capítulo 2 de Atos dos Apóstolos, que se encerra com a descrição da primeira comunidade cristã. Portanto, apreende-se que esta nasce por obra do Espírito.

Nenhum comentário: