II. 3 - Páscoa: o Reino definitivo é comunitário

A leitura do Novo Testamento nos mostra que existe uma diferença muito grande entre os relatos da Ressurreição de Jesus, o que não acontece tão acentuadamente com os relatos da Paixão.
Nas histórias da Paixão de Jesus Cristo existe um quadro fixo de tradição comum: entrada em Jerusalém (cf. Mt 21,1-11; Mc 11, 1-11; Lc 19, 28-38; Jo 12, 12-15), última ceia (cf. Mt 26, 20-35; Mc 14, 17-31; Lc 22, 14-38; Jo 13,1-17,26), Getsêmani (Mt 26, 36-46; Mc 14, 32-42; Lc 22, 39-46; Jo 18,1), prisão (Mt 26, 47-56; Mc 14, 43-52; Lc 22, 47-53; Jo 18, 214), Sinédrio (Mt 26, 57-68; Mc 14, 53-65; Lc 22, 66-71), negação de Pedro (Mt 26, 69-75; Mc 14, 66-72; Lc 22, 54-62; Jo 18, 15-27), Barrabás (Mt 27, 15-26; Mc 15, 6-15; Lc 23, 17-25; Jo 18, 39-40), Pilatos (Mt 27, 11-26; Mc 15, 1-15; Lc 23, 1-7.13-25; Jo 18,28-19,16), cruz (cf. Mt 27, 32-56; Mc 15, 23-41; Lc 23, 33-49; Jo 19, 16b-37), sepultamento (cf. 27, 57-61; Mc 15, 42-47; Lc 23, 50-56; Jo, 19- 38-42).
Já com as narrativas pascais, podemos afirmar que, em comum entre elas, há apenas o fato de apresentarem a seqüência túmulo vazio – aparições. Nos detalhes, as narrativas da Ressurreição de Jesus são divergentes quanto ao lugar (cf. Mt 28,16ss; Mc 16,7.9ss; Lc 24, 13-50; Jo 20,11-21,1; At 1,4), ao tempo (em Lc, as aparições concentram-se no dia da Páscoa, em Jo, estendem-se pó cerca de uma semana, e em At, por 40 dias), às testemunhas e às circunstâncias. Essa diversidade funda-se nos próprios acontecimentos narrados: a Paixão deu-se em Jerusalém, em poucos dias; já as cristofanias (aparições do Ressuscitado) estenderam-se por um longo tempo e só mais tarde a tradição restringiu-as a apenas 40 dias (cf. At 1,3).
Essas diferenças na apresentação dos relatos pascais são, na verdade, riquezas que temos em mãos para compreender a experiência pascal das primeiras comunidades. As diferentes tradições pascais são, portanto, elaborações, interpretações das comunidades para responder a seus problemas particulares à luz da fé na ressurreição de Jesus. Por ser um evento único e novo, naturalmente a ressurreição de Jesus gerou diversas interpretações e compreensões, dúvidas e certezas, que se refletem nos relatos pascais.
Talvez uma das maiores dúvidas das comunidades era a respeito de quem era o Ressuscitado. Os relatos das aparições de Jesus tornam-se, ante as dúvidas das comunidades, a revelação de que Jesus está vivo, não se tratando de visões ou de sonhos. Por isso são tão importantes passagens, nos dois Evangelhos mais tardios, como a da aparição aos apóstolos, em que Jesus mostra-lhes as mãos e os pés e pede-lhes que o apalpe (cf. Lc 24, 38-40); aquela em que lhes pede algo para comer (cf. Lc 24, 41-42); a da dúvida de Tomé (que representa a dúvida da comunidade), que cessa com Jesus mostrando-lhe as feridas nas mãos e no lado, também pedindo a ele que o tocasse (cf. Jo 20, 24-28). Em outras palavras, tais relatos querem testemunhar aos que ainda duvidam: o Cristo glorioso que a nossa fé professa é aquele mesmo Jesus histórico que foi crucificado em Jerusalém.
Porém, o aspecto mais importante da Ressurreição é que se trata não de uma ressurreição individual e única, mas da garantia da ressurreição para todo o gênero humano no Reino definitivo e comunitário. A passagem mais significativa (e “bela”, embora este seja um termo subjetivo e, portanto, nada científico ou técnico) desse aspecto encontra-se nos textos paulinos: “Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram” (1Cor 15,20b). Para apreender-se toda a profundidade e riqueza dessa frase, faz-se necessário compreender o significado do termo “primícias”, pouco usual em nossa sociedade atual urbana. Para o povo judeu (e outros povos antigos também, mas a nós interessa particularmente a cultura presente nas Sagradas Escrituras), as primícias eram os primeiros frutos colhidos, para serem ofertados a Deus; só após a oferta das primícias se realizava a colheita. Assim, se após as primícias segue-se a colheita, podemos afirmar que, sendo Jesus as primícias dos que morreram, à sua ressurreição segue-se a nossa própria ressurreição
[1].
Mas esse Reino definitivo e comunitário não se dá apenas na transcendência, mas já a partir do aqui e do agora, embora ainda não plenamente. No mandato de Jesus a seus apóstolos, antes de sua ascensão aos céus, encontramos os aspectos desse Reino em nossa realidade histórica: “Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo e ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei” (Mt 28, 19-20a). É, pois, um Reino missionário (“Ide”), universal (“todas as nações”), seguidor de Jesus (“se tornem discípulos (...) a observar tudo quanto vos ordenei”), sacramental (“batizando-as”), trinitário (“em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”) e catequético (“ensinando-as”).


[1] Este tema será aprofundado adiante, na última parte do terceiro capítulo.

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