II.2 - A pregação de Jesus e a instauração do Reino
Segundo a perspectiva judaica, era fundamental cultuar Iahweh no único local onde o contato com Deus era possível, ou seja, no Templo, como também era fundamental observar todas as prescrições da Lei contidas na Torah. Só assim o Senhor manteria sua aliança com seu povo.
Durante sua vida pública, Jesus critica essa perspectiva, mas não rejeita totalmente a validade do Templo e da Torah como símbolos da eleição de Israel, tanto é que subiu ao Templo (cf. Lc 19, 45-48; Jo 2,13; 5,1; 7, 1-14; 10,22ss; 12,12; Mt 21, 12-16; Mc 11, 15-18) e em diversas oportunidades referiu-se à validade da Lei: “Não penseis que vim revogar a Lei e os Profetas. Não vim revoga-los, mas dar-lhes pleno cumprimento, porque em verdade vos digo que, até que passem o céu e a terra, não será omitido nem um só i, uma só vírgula da Lei, sem que tudo seja realizado” (Mt 5,17-18). O que Jesus faz é apresentar uma perspectiva inovadora que coloca o próprio povo como lugar do poder e da presença de Deus (cf. Mt 5, 13-16; Lc 17,20-21). Na defesa dessa nova perspectiva, Jesus articula a tradição veterotestamentária e a esperança escatológica, pregando um Deus criador de todos, mesmo dos aleijados, dos impuros e dos pecadores. Assim, o Reino de Deus apresentado por Jesus implica na inclusão de todos, excluindo-se apenas os que não aceitam essa inclusão universal.
Apesar dessa inclusão universal, a pregação de Jesus prioriza o Reino para três grupos principais: os pobres (cf. Mc 10,25; Lc 1,52ss;...); os doentes e aleijados, considerados “impuros” (cf. Mc 5,25-34; Lc 13,10-17;...); e os pecadores públicos e as prostitutas (cf. Mt 11,19; Lc 7,34;...). Essa prioridade faz-se presente nas curas (cf. Mc 1,40-42; Lc 7,1-10;...) e nos exorcismos (cf. Mt 9,32-34;...), nas parábolas que incluem os perdidos (cf. Lc 15, 1-32;...) e os não convidados (cf. Mt 22,8-10;...), na refeição com os pecadores (cf. Mt 9, 10-13; Lc 19,1-10;...), ou seja, no acolhimento por Deus de todos aqueles que estavam excluídos do “povo santo”, segundo a perspectiva legalista judaica.
Outra grande novidade apresentada por Jesus foi o rompimento de uma mentalidade que via Deus como vingativo e que subjugava as nações inimigas de Israel. Jesus apresenta Deus como Pai de todos os povos; portanto, o povo não pode ter a mentalidade de violência e vingança, de domínio e de subjugo, conforme a lei deuteronomista (“Vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé” – Dt 19,21b) –, mas de amor aos inimigos (“Eu, porém, vos digo a vós que me escutais: Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos amaldiçoam, orai por aqueles que vos difamam” – Lc 6,27-28), pois só assim “sereis filhos do Altíssimo, pois ele é bom para com os ingratos e com os maus” (Lc 6,35d).
Com Jesus, o Reino de Deus já acontece no tempo presente, enquanto que para João Batista acontecerá num tempo futuro próximo; daí resultarem dois estilos de vida bem diferente entre ambos: enquanto João é um asceta apocalíptico, Jesus é visto como um glutão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores (cf. Lc 7,34, Mt 11,19). Até os discípulos de João Batista procuram Jesus para saber a razão de seus discípulos não jejuarem, enquanto eles e os fariseus o faziam (cf. Mt 9,14; Mc 2,18; Lc 5,33). Ao que Jesus responde: “Por acaso podem os amigos do noivo estar de luto enquanto o noivo está com eles? Dias virão, quando o noivo lhes será tirado; então, sim, jejuarão” (Mt 9,15b). De fato, posteriormente, a comunidade cristã reintroduz a prática de jejuar, justificando-a com referência à ausência de Jesus.
A prática que caracteriza Jesus é a participação na festa de casamento: sua simbólica central é a do banquete festivo. A partilha do alimento ao redor da mesa era uma simbologia importante para muitos movimentos judaicos (p.ex.: os essênios, os fariseus,...), mas Jesus a despe de elementos de pureza ritual (cf. Mt 15, 1-20) e de santidade moral (cf. Mc 2, 15-17). Com isso, a partilha do alimento reveste-se do significado inclusivo e igualitário do Reino instaurado por Jesus, que se plenifica com a instituição da Eucaristia (cf. Mt 26, 26-29; Mc 14, 22-25; Lc 22; 19-20; 1Cor 11, 23-25). Podemos perceber na instituição da Eucaristia esse aspecto inclusivo e igualitário na expressão “... entregue por vós e por todos...”, compreendendo-se o “vós” como aqueles que aderiram à fé e o “todos” como aqueles que, embora estejam fora da mediação salvífica de Cristo, não estão excluídos do processo universal de salvação[1].
Um dos aspectos mais interessantes da pregação de Jesus – perceptível sobretudo nas parábolas – é sua capacidade de desmontar o “esquema mental simbólico[2]” da sociedade judaica, na qual viveu, apresentando outro em seu lugar.
As parábolas de Jesus, por exemplo, são a expressão do seu mundo simbólico, pondo em prática toda a sua força na criação de uma nova forma de pensar e de agir para, a partir de então, destruir o “inimigo”, ou seja, tudo o que impede que o Reino de Deus aconteça entre nós.
Jesus trabalhou seu povo a partir do esquema mental simbólico desse povo. Desnuda-o de tal maneira nas parábolas, que deixa clara suas contradições, sua inconsistência, sua injustiça, sua necessidade de mudança. Ele sabia que não se muda uma sociedade com símbolos importados, porque estes não apelam para a consciência profunda do povo, e sim a partir da cultura de cada povo. Atacar uma sociedade sem tocar ou questionar seus esquema simbólico não produz nenhuma real mudança. O esquema mental simbólico não faz apenas pensar de determinada maneira, mas agir de acordo com o modo de pensar.
É através do esquema mental simbólico pessoal e social que cultura e fé se relacionam. Assim, se uma instituição religiosa quer ser realmente libertadora, deve incorporar a cultura de cada grupo humano – seu mundo simbólico – a todas as formas de aproximação de Deus.
Portanto, em relação às parábolas de Jesus, elemento fundamental de sua pregação do Reino, estas devem ser lidas levando-se em conta o fundo histórico-cultural subjacente a cada parábola ou grupo de parábolas, pois é este fundo que alimenta a estrutura simbólica que Jesus quer mudar ou melhorar. No tempo de Jesus, o fundo cultural-sócio-religioso mais grave é o legalismo, com todas as conseqüências de alienação e opressão social e espiritual que traz consigo. As parábolas sempre apresentam uma alternativa para aquelas situações desesperadoras ou aparentemente sem saída; nesse sentido, são expressão de libertação, uma vez que são sempre boa nova para os pobres e oprimidos, oferecendo não só uma saída libertadora, mas também uma análise profunda das causas de sua situação.
O auge do processo da parábola é o choque simbólico, no qual a mentalidade opressora, já assimilada pelo grupo social, é confrontada com a proposta de Jesus e, neste ponto, o esquema da sociedade é questionado: neste momento, fica aberto o caminho da libertação, o caminho da conversão, o caminho do Reino. A parábola do bom samaritano (Lc 10, 29-37), por exemplo, apresenta um homem sem vínculos legais que, por isso, tem maior liberdade para demonstrar concretamente o que é solidariedade. Assim, o esquema mental simbólico legalista é confrontado pela liberdade sadia que abre a possibilidade de maior compromisso solidário. A parábola visa a libertação das leis desumanizantes da época de Jesus que, mesmo diante das urgências de solidariedade, colocavam o legalismo acima da necessidade humana.
Com sua vida e com sua pregação, com sua morte e ressurreição, Jesus Cristo reconcilia a humanidade com Deus Pai e Criador, restabelecendo as relações rompidas pelo pecado, conforme destacamos na terceira parte do primeiro capítulo deste trabalho. Paulo nos ensina que “Se pela falta de um só [Adão] todos morreram, com quanto maior profusão a graça de Deus e o dom gratuito de um só homem, Jesus Cristo, se derramaram sobre todos.(...) como pela desobediência de um só homem todos se tornaram pecadores, assim, pela obediência de um só, todos se tornarão justos” (Rm 5, 15b.19). E, mais adiante, “a criação em expectativa anseia pela revelação dos filhos de Deus. De fato, a criação foi submetida à vaidade – não por seu querer, mas por vontade daquele que a submeteu – na esperança de ela também ser libertada da escravidão da corrupção para entrar na liberdade da glória dos filhos de Deus. Pois sabemos que a criação inteira geme e sofre as dores de parto até o presente” (Rm 8, 20-22).
[1] Para entender a diferença entre mediação salvífica e processo de salvação, ver adiante a parte 3 do capítulo III deste trabalho.
[2] “Esquema mental simbólico” é a nossa forma de pensar, através da qual vemos o mundo; são os padrões mentais que temos para medir as coisas, valorizar as pessoas; é o quadro subjetivo de referência que nos leva a reagir de determinada forma. O que alimenta, numa sociedade, a sua forma de pensar, de agir e de reagir é o esquema simbólico. Assim, uma sociedade só começa a mudar se for desmontado o seu esquema simbólico.
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