II. A plena realização do Reino de Deus em Jesus Cristo

II.1 - O Magnificat: teologia da encarnação em vista do Reino

A figura de Maria, nas Sagradas Escrituras, embora apareça poucas vezes, reveste-se da mesma importância metonímica de outras personagens bíblicas. O anúncio da encarnação do Filho de Deus feito pelo Anjo não se deve a méritos pessoais de Maria, mas exclusivamente à salvífica vontade e graça do Pai, que, através daquela jovem e simples judia, quis realizar Sua “nova e eterna Aliança” com toda a humanidade.
O fiat de Maria não lhe concede o privilégio de acomodar-se a uma situação que poderia ser considerada humanamente especial de escolhida para ser a mãe do Salvador; ao contrário, à resposta positiva de Maria – “Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lc 1,38b) –, o Espírito Santo desceu sobre ela e o poder do Altíssimo a cobriu com sua sombra (cf. Lc 1,35b), e essa ação do Espírito, além de promover a concepção do Verbo, impulsiona a jovem de Nazaré a dirigir-se apressadamente à região montanhosa onde vivia sua velha prima Isabel, então grávida de seis meses, para a servir (cf. Lc 1,39).
O Magnificat, que Maria entoa em casa de Isabel e Zacarias após a recepção pela primeira (cf. Lc 1,41-45), parece expressar a ação do Espírito Santo, que permite à humilde jovem compreender a grandiosidade da obra que o Senhor estava realizando através dela, da mesma maneira como, mais tarde, o Paráclito ensinará e recordará tudo o que Jesus disse aos apóstolos (cf. Jo 14,26).
O canto de Maria anuncia um momento novo na história, pela atuação de Deus, que inverte as relações sociais visando a criação de um novo relacionamento entre a humanidade, apresentando uma mudança de sujeitos na direção da história: com a Encarnação, o orgulhoso, o poderoso e o rico não têm mais a última palavra na história, mas os humildes e os pobres libertos da exploração e da opressão social. Lucas, ao colocar o Magnificat na boca de Maria, torna-a a porta-voz da esperança de todos os excluídos que anseiam por libertação e por vida digna, pois não é vontade de Deus que seus filhos vivam como o pobre Lázaro que “desejava saciar-se do que caía da mesa do rico...” (cf. Lc 16,21a), mas cumular de bens os famintos (cf. Lc 1,53a).
O projeto do Reino de Deus, que Jesus apresentará no início de sua vida pública através das bem-aventuranças (Mt 5, 3-12; Lc 6, 20-23), já se apresenta antecipado no Magnificat[1], como cumprimento das promessas de Deus: “conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e de sua descendência para sempre” (Lc 1,55).
Apreende-se das palavras de Maria uma teologia da encarnação do Verbo em vista do Reino de Deus, reino no qual prevalece a justiça divina, oposta à injustiça humana. Daí apresentar uma inversão daquelas estruturas sociais que refletem a injustiça do ser humano em relação a seus semelhantes: “Depôs os poderosos de seus tronos, e a humildes exaltou. Cumulou de bens a famintos e despediu ricos de mãos vazias” (Lc 1,52-53). Portanto, a encarnação de Jesus no seio de Maria é sinal da chegada desse Reino de Deus. E o Reino cantado por Maria é aquele que atende às necessidades humanas fundamentais de todos os membros da sociedade.
Nessa teologia da encarnação ganha destaque o termo “misericórdia”, que aparece duas vezes no Magnificat (Lc 1, 50.54). O “coração” de Deus sofre, se compadece da miséria humana, da injustiça que irmãos impõem sobre irmãos. O Filho de Deus encarnado ensinará à humanidade pecadora a chamar Deus de Pai (Abba) e a reconhecer em cada ser humano, desde o mais pequenino, um irmão que tem o mesmo direito à dignidade da vida. Jesus apresenta o Reino de Deus como uma comunidade de irmãos, filhos todos de um único e mesmo Pai, da qual ninguém deverá excluído.

[1] Naturalmente não podemos esquecer que, assim como todos os escritos do Novo Testamento, o Evangelho de Lucas foi escrito após o evento pascal de Cristo e de acordo com a experiência de fé de cada comunidade. Vislumbra-se, no Magnificat, uma certa veneração à mãe de Jesus já nas primeiras comunidades cristãs, conforme podemos observar na frase desse cântico: “doravante as gerações todas me chamarão de bem-aventurada” ( Lc 1,48c). Além disso, sabemos que este cântico de Maria é inspirado no cântico de Ana (cf. 1Sm 2, 1-10) e em diversas outras passagens do Antigo Testamento. A nota c a Lc 1,46a, da Bíblia de Jerusalém, explica: “Além das principais semelhanças literárias (...), notem-se os dois grandes temas: 1. pobres e pequenos são socorridos em detrimento de ricos e poderosos (cf. Sf 2,3ss; Mt 5,3ss); 2. Israel, objeto da graça de Deus (cf. Dt 7,6ss; etc.), desde a promessa feita a Abraão (Gn 15,1ss; 17,1ss). Lucas deve ter encontrado este cântico no ambiente dos “pobres” , onde era talvez atribuído à Filha de Sião; julgou conveniente coloca-lo nos lábios de Maria, inserindo-o em sua narrativa, que é em prosa.

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