I.4 - A pregação profética e a instauração do Reino

Explicando de forma sucinta, o profetismo surge em Israel durante o período da monarquia
[1]. Como já visto anteriormente, a experiência do exílio na Babilônia foi uma das mais marcantes em toda a história de Israel e responsável pela revisão de toda a sua história à luz da Aliança com Iahweh. Sob esse prisma, história da monarquia em Israel foi vista como o início da ruína do povo eleito e sinal da rejeição desse povo à Aliança.
Segundo a Bíblia, a monarquia teria surgido por razões externas, por causa das ameaças dos povos inimigos: “(...) teremos um rei e seremos, nós também como as outras nações: o nosso rei nos julgará, irá à nossa frente e fará as nossas guerras” (1Sm 8,19c-20). No entanto, foram principalmente as razões internas que levaram à instalação da monarquia em Israel. Anteriormente à monarquia, vigorava em Israel o sistema tribal. Este sistema tem sua estrutura definida em torno e a partir da figura do homem, do pai. Estar ligado a ele garante a pertença à família e à posse da terra. O sistema tribal, por ser comunitário, trouxe fartura e riqueza às tribos; no entanto, a ocupação de um território mais fértil naturalmente fazia com que uma enriquecesse e se fortalecesse mais que outras, criando tanto os grupos de pobreza como a corrupção. O desenvolvimento de técnicas agrícolas e a utilização do boi na agricultura favoreceram uma maior produção de alimentos e, conseqüentemente, a possibilidade da comercialização do excedente. Tribos como Judá e Efraim, mais próximas das rotas comerciais, beneficiavam-se disso. As terras, vistas como férteis e geradoras de riquezas, precisam ser defendidas contra os inimigos.
Com o passar do tempo, a diferença entre as tribos foi-se acentuando e, com isso, também os conflitos entre elas. Surgem então, como elemento unificador contra o inimigo externo comum, as figuras dos Juízes, cuja função inicial era organizar as tribos na resistência contra os exércitos estrangeiros. Em tempo de guerra, o juiz organizava um exército popular; terminada a guerra, terminava a sua função.
Segundo a Bíblia, após a instalação do povo de Israel na Terra Prometida (Js e Jz 1), após o Êxodo, “O Anjo de Iahweh subiu de Guilgal a Betel e disse: ‘Eu vos fiz subir do Egito e vos trouxe a esta terra que eu tinha prometido por juramento a vossos pais. Eu dissera: Jamais quebrarei minha aliança convosco. Quanto a vós, não fareis aliança com os habitantes desta terra; antes, destruireis os seus altares. No entanto, não escutastes a minha voz. Por que fizestes isso? Por isso eu digo: não expulsarei estes povos de diante de vós. Serão vossos opressores e os seus deuses serão uma cilada para vós’” (Jz 2,1-3).
Mais adiante, o mesmo livro narra: “E os filhos de Israel habitaram no meio dos cananeus, dos heteus, dos amorreus, dos ferezeus, dos heveus e dos jebuseus; desposaram as filhas deles, deram os seus próprios filhos às filhas deles e serviram aos seus deuses” (Jz 3,5). Continuando, no livro dos Juízes consta que “Os filhos de Israel fizeram o que é mau aos olhos de Iahweh. Esqueceram a Iahweh seu Deus para servir aos baals e às aserás. Então a ira de Iahweh se acendeu contra Israel e os entregou nas mãos de Cusã-Rasataim, rei de Edom, e os filhos de Israel serviram a Cusã-Rasataim durante oito anos. Os filhos de Israel clamaram a Iahweh, e Iahweh lhes suscitou um salvador que os libertou, Otoniel, filho de Cenez, irmão caçula de Caleb. O espírito de Iahweh esteve sobre ele, e ele julgou Israel e saiu à guerra. Iahweh entregou nas suas mãos Cusã-Rasataim, rei de Edom, e ele triunfou sobre Cusã-Rasataim” (Jz 3, 7-10). Esta é a construção teológica bíblica para o surgimento do primeiro juiz em Israel, suscitado por Deus, ante uma ameaça externa.
O livro dos Juízes vai contando as histórias dos juízes de Israel. Ao falar de Gedeão, conta que o povo o quis fazer rei e a seus descendentes (cf. Jz 8, 22ss), mas Gedeão não aceitou, porque “é Iahweh quem reinará sobre vós” (Jz 8,23c). Mas o clima para a monarquia parece já estar preparado. Os próximos juízes passam a desempenhar sua função por mais tempo, não apenas lutando contra os povos inimigos, mas mediando os conflitos entre as tribos. Os últimos capítulos do livro dos Juízes e os capítulos que iniciam o livro de Samuel apresentam conflitos entre grupos e tribos, violência contra a mulher (cf. Jz 19-21); a corrupção entre os juízes (cf. 1Sm 2, 12-17); e os problemas externos, como os ataques dos filisteus (cf. 1Sm 4, 1-11) e dos amonitas (cf. 1Sm 11, 1-2). Nesse contexto, na época de Samuel, o povo exige: “(...) teremos um rei e seremos nós também como as outras nações” (1Sm 8,19c). Na verdade, a monarquia é o anseio de grupos privilegiados que, defendendo um poder central, defendem na verdade seus interesses particulares internamente e contra os inimigos externos.
Os livros 1 e 2 de Samuel e 1 e 2 Reis contam a história da monarquia em Israel, tanto no reino do Norte quanto do Sul.
Saul foi o primeiro que reinou sobre Israel (cf. 1Sm 13ss). No entanto, o período monárquico mais importante para a história do povo na Bíblia refere-se aos reinados de Davi ( cf. 2Sm 5ss) e de seu filho Salomão (cf. 1Rs 1,20ss), pois ambos simbolizam um Israel unido, que durou pouco tempo.
O primeiro passo importante de Davi para a consolidação da monarquia deu-se quando conquistou Jerusalém, fazendo dela sua capital, o que garantiu o controle de todo o país, devido à sua posição geográfica central. A tendência à centralização do poder se percebe quando Davi transfere a Arca da Aliança para Jerusalém (cf. 2Sm 6). As Escrituras vão contando como Davi foi perdendo o poder; as intrigas e conflitos internos com seus filhos em constante luta pelo poder (cf. 2Sm 13-19); o surgimento de grupos separatistas rompendo o reino em nome da vida nas tendas (cf. 2Sm 20); a morte de Urias, mostrando a que ponto chega a prepotência de quem julga ter o poder absoluto (cf. 2Sm 11).
O poder enfraquecido em Davi consolida-se em Salomão, através de meios nada edificantes: chantagens, desterros, mortes. O reinado de Salomão tem início marcado pela violência e pela ilegitimidade, visto não ser o primogênito. Já rei, Salomão promove a construção do templo em Jerusalém, ao lado do palácio real, para abrigar a Arca e centralizar todo o culto ali, o que não é visto com bons olhos pelo povo, uma vez que essa centralização tem como conseqüências um distanciamento tanto geográfico quanto cúltico, as mais variadas formas de exclusão, particularmente das mulheres, a manipulação e o controle da religião e da vida religiosa do povo.
Apesar disso, Salomão passou para a história como um rei tão sábio que vinha gente de longe para apreciar sua sabedoria (cf. 1Rs 10). Também ficou conhecido como excelente administrador, organizando o pagamento de tributos e das funções administrativas (cf. 1Rs 4), consolidando a divisão das 12 tribos, de forma que cada uma fosse responsável durante um mês ao ano do sustento do palácio real.
No entanto, a carga tributária e de serviço tanto para sustento do palácio real como para a construção do Templo era tão pesada que, mais tarde o rei Roboão, filho de Salomão, escuta a respeito de seu pai: “Teu pai tornou pesado o nosso jugo” (1Rs 12,4). Devido a esses pesados tributos, que continuaram com Roboão, as tribos do norte romperam com o sul, em 931 a.C., e se organizaram autonomamente.
O capítulo 11 do primeiro livro dos Reis conta, ainda, as “sombras” do reinado de Salomão: seu casamento com centenas de mulheres estrangeiras “pertencentes às nações das quais Iahweh dissera aos filhos de Israel: ‘Vós não entrareis em contato com eles e eles não entrarão em contato convosco: pois, certamente, eles desviarão vossos corações para seus deuses’” (1Rs 11,2). De fato, “quando ficou velho, suas mulheres desviaram seu coração para outros deuses e seu coração não foi mais todo de Iahweh, seu Deus, como o fora o de Davi, seu pai. Salomão prestou culto a Astarte, deusa dos sidônios, e a Melcom, a abominação dos amonitas” (1Rs 11, 4-5). Construiu ainda santuários para os deuses estrangeiros de suas mulheres (cf. 1Rs 11,7-8).
Personagem contraditória, com Salomão o reino experiencia essa mesma contradição: ao mesmo tempo em que está unificado e no auge de seu poder e glória, está com seus dias contados.
O restante do primeiro livro dos Reis e o segundo vão narrar as infidelidades a Iahweh pelos reis tanto do norte (que mantém o nome de Israel) quanto do sul (que passa a ser chamado de Judá), dois reinos enfraquecidos pela divisão e pelos conflitos internos. Resumidamente, o reino do norte é dominado pelos assírios em 722 a.C., quando a capital Samaria é tomada e as lideranças de Israel são deportadas. O reino do sul dura até 586 a.C., quando sofre o exílio na Babilônia.
Os conflitos, as injustiças, as corrupções existiram tanto no sistema tribal quanto na monarquia. No entanto, foi durante a monarquia que o sonho de liberdade se desfez: o povo da Aliança havia perdido sua liberdade e a terra que Iahweh prometera a seu povo através de Moisés. Daí a história da monarquia em Israel ser vista como o início da ruína do povo eleito e sinal da rejeição desse povo à Aliança.
Como foi dito inicialmente, o profetismo surge com toda a força nesse contexto da monarquia, embora alguns já estejam mencionados ainda na época dos Juízes, como é o caso de Samuel, cuja vocação profética está relatada em 1Sm 3,1ss, e que por ordem de Iahweh tanto consagrou Saul como rei (cf. 1Sm 7-10) como também proferiu um oráculo depondo-o do trono (1Sm 13.15).
Tradicionalmente define-se o profeta bíblico como alguém que denuncia as injustiças humanas e sociais e anuncia o Reino de Deus. Estruturalmente, a profecia anunciada possui uma forma típica que a caracteriza como tal: apresenta uma censura moral, a ameaça de punição divina e a afirmação da vontade salvífica de Iahweh em relação a todo Israel.
Desde o princípio da monarquia em Israel, o profetismo esteve presente. Aconteceu com Samuel em relação a Saul; com Gad em relação ao rei Davi, cujas profecias o advertiram (cf. 1Sm 22,5) e o ameaçaram de punição por ter mandado fazer o recenseamento (cf. 2Sm 24, 11-13), e Natã com o mesmo Davi, reprovando-o por adultério e assassinato (cf. 2Sm 12, 1-14); com Aías, que encarrega Jeroboão de rebelar-se contra Salomão e fundar o reino separado de Israel (cf. 1Rs 11, 29-40), mas que ameaça de destruição a casa do mesmo Jeroboão por sua infidelidade a Iahweh (cf. 1Rs 14, 1-19); Miquéias prediz a derrota e a morte de Acab, em oposição às vitórias preditas por outros profetas (cf.1Rs 22); e assim muitos mais, sendo estas citações apenas para exemplificação.
De maneira geral, o que se percebe é que em Israel há uma oposição em desenvolvimento entre profetismo e monarquia, pois os profetas estavam convencidos de que a monarquia era uma instituição ímpia. Quanto maior a opressão, maior a reação por parte da profecia.
Na época do rei Acab, o profeta Elias atua e passa à história como profeta exemplar. Vivendo em tempo de crise, quando a seca assola o país e a fome atinge os pobres, Elias favorece a partilha e faz a opção preferencial pelas viúvas e pelas crianças (cf. 1Rs 17, 1-24). Vendo que o rei Acab está mais preocupado com seus burros e com seus cavalos do que com a fome do povo (cf. 1Rs 18,5), censura-o, assim como aos 450 profetas de Baal que comiam à mesa do rei (cf. 1Rs 18,19). Em relação à rainha, Jezabel, que trouxera de Tiro o deus Baal e os seus 450 profetas para confundir o povo, Elias profere palavras ainda mais duras (cf. 1Rs 21,23).
Eliseu deu prosseguimento à ação de Elias contra a classe opressora e a favor do povo simples, como se observa no milagre da multiplicação do óleo da viúva (cf. 2Rs 4, 1-7), repetindo, de certa forma, o milagre de Elias (cf. 1Rs 17, 7-16) em favor da viúva de Sarepta, mas em contexto diferente: Elias multiplicou o óleo e a farinha para saciar a fome da viúva e de seu filho; Eliseu multiplicou o óleo para garantir a liberdade dos dois filhos da viúva.
É impossível não associar a ação de Eliseu à ação de Jesus. Se com Jesus se instaura o Reino de Deus, com Eliseu a instauração desse Reino está intensamente prefigurada. Presenciamos, com Eliseu a multiplicação dos pães (cf. 2Rs 4, 42-44) e a devolução da saúde ao leproso Naamã (cf. 1Rs 5,1ss), milagres semelhantes aos realizados por Jesus e que sinalizavam a presença do Reino de Deus entre nós.
Vão surgindo mais profetas ao longo da história da monarquia, que, falando a partir de suas próprias experiências, comungam com o sofrimento do povo. É o caso de profetas camponeses como Amós e Miquéias que denunciam a situação campesina; ou de Oséias, que fala da infidelidade do povo a Iahweh a partir de seu casamento dramático; ou de cidadãos urbanos, como Isaías, Sofonias e Jeremias que denunciam a situação dos pobres na capital. Nas palavras desses profetas estão contidas as críticas e as esperanças do povo.
Um dos profetas mais importantes, Isaías atua em Jerusalém. A visão que o profeta tem da cidade é desoladora (cf. Is 1,21-26) e seus governantes são apresentados como insensíveis (cf. Is 10, 1-4). Devido a essa situação, faz-se necessário pensar o futuro em outros termos: daí as crianças apontarem os novos caminhos. No “Livro do Emanuel” (Is 6-12), Isaías anuncia o nascimento de uma criança em cujas mãos estará o destino do país (cf. Is 7, 10-17) e que indica novas luzes para um povo que habita nas trevas (cf. Is 8,23-9,6). Os próprios filhos de Isaías tornam-se sinal de Iahweh (cf. Is 8,18).
Já no fim da monarquia, destaca-se a figura de Jeremias, cuja ação durou décadas, desde a reforma de Josias até depois da destruição de Jerusalém pelos babilônios (586 a.C.). A passagem Jr 22,13-19 sintetiza a razão da oposição: acúmulo de riquezas, luxo, opressão e violências praticadas pelo rei. Em sua profecia, após a destruição de Jerusalém, Jeremias afirma que o exílio não havia sido um incidente, mas deveria ser objeto de reflexão, como de fato se deu com o povo exilado que realizou uma revisão de toda a sua história à luz da Aliança com Iahweh para compreender a razão da situação em que se encontrava, contrária à promessa de Iahweh a seus antepassados.

[1] A monarquia foi instituída em Israel por volta do ano 1000 a.C.

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