I.3 - Pecado: recusa do projeto comunitário de Salvação
O ser humano é um ser de relações, criado para viver em comunidade e não sozinho. Gn 2 nos conta que, após modelar o homem com a argila do solo e torná-lo um ser vivente (cf. Gn 2,7), Deus plantou um jardim em Éden e ali colocou sua criatura (cf. Gn 2,8). E Deus ainda disse: “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2,18b), criando, então, uma “auxiliar que lhe corresponda” (Gn 2,18c), a mulher (cf. Gn2,22).
Na situação de liberdade em que se encontravam o primeiro homem e a primeira mulher, e na relação que estabeleciam com Deus, entre si e com a natureza, “os dois estavam nus, o homem e a mulher, e não se envergonhavam” (Gn 2,25). Podemos compreender, através dessa imagem da nudez que não causa vergonha, que ambos, homem e mulher, estavam voltados para o “outro” e não para si, daí não se perceberem nus. No momento em que há o primeiro rompimento das suas relações - no caso narrado em Gn 3, a primeira relação rompida é com Deus, através da desobediência -, voltando-se para si, reconhecem que estão nus e se escondem (cf. Gn 3,7). Bela imagem para falar do egoísmo como princípio do pecado, como princípio de uma série de rompimentos relacionais.
Portanto, Gn 3 nos apresenta a primeira relação que o ser humano rompe: com o Criador. Devido a esse rompimento pela desobediência a Deus, que os proibira de comer os frutos da árvore que estava no centro do Jardim do Éden (cf. Gn 3,3), homem e mulher, expulsos do Éden (cf. Gn 3,23), são atingidos “nas suas atividades essenciais: a mulher como mãe e esposa [cf. Gn 3,16], o homem como trabalhador” [cf. Gn 3,17-19][1].
O livro do Gênesis vai mostrando que esse rompimento do ser humano com Deus é, como já foi dito, o primeiro de uma série, que atinge todas as relações humanas essenciais. Como conseqüência desse primeiro rompimento, podemos ver quebra da ordem querida e estabelecida por Deus na criação, no que se refere à relação entre homem e mulher: aquela que foi criada como “uma auxiliar que lhe corresponda” (Gn 2,8c), isto é, a mulher foi associada ao homem e criada como igual, torna-se sua sedutora e será sujeitada por ele para ter filhos.
O segundo rompimento, encontramos expresso na história de Caim e Abel (cf. Gn 4, 1-160, ou seja, a luta do ser humano contra o ser humano, contra o seu irmão. Mais tarde, Jesus apresenta à humanidade o que se conhece como o “mandamento maior”, que procura restaurar a relação perdida por este duplo rompimento do ser humano com Deus e com o próximo: amar a Deus dobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo (cf. Mt 22,40).
Em Gn 4, está escrito: “Abel tornou-se pastor de ovelhas e Caim cultivava o solo. Passado o tempo, Caim apresentou produtos do solo em oferenda a Iahweh; Abel, por sua vez, também ofereceu as primícias e a gordura de seu rebanho. Ora, Iahweh agradou-se de Abel e de sua oferenda. Mas não se agradou de Caim e de sua oferenda...”. Esta passagem lida fora de contexto, parece mostrar um Deus injusto, que aceita uma oferta e rejeita outra. No entanto, a história de Caim e Abel, lida à luz da história de Israel e, particularmente, à situação de escravidão na Babilônia, permite ao povo oprimido, a partir dessa proto-história, reconhecer o momento de sua história em que, rompido com Deus, passa a romper com o irmão. Para que haja cultivo de solo, faz-se necessário a um povo fixar-se na terra; e a fixação sempre leva à construção de um aglomerado de casas, que, com o passar do tempo, torna-se uma cidade[2]. O pastoreio de ovelhas indica a existência de um povo nômade, não fixado na terra. Assim, à luz da história de Israel, enquanto Israel vivia em estado tribal, com um conselho de anciãos dirigindo a comunidade, o povo vivia em relativa liberdade; a fixação na terra e a construção de cidades levaram à passagem da sociedade tribal para a monarquia. Se a história da monarquia em Israel é vista como o início da ruína do povo eleito por Iahweh e sinal da rejeição desse povo à Aliança, é compreensível que Deus rejeite a oferta de Caim e aceite a oferta de Abel: a experiência do presente do povo se reflete na construção do texto que narra um evento passado.
O episódio do Dilúvio (cf. Gn 6,5-8,22) mostram a conseqüência dos rompimentos anteriores atingindo a própria natureza. “Iahweh viu que a maldade do homem era grande sobre a terra, e que era continuamente mau todo desígnio de seu coração. E disse Iahweh: ‘Farei desaparecer da superfície do solo os homens que criei - e com os homens os animais, os répteis e as aves do céu -, porque me arrependo de os ter feito’” (Gn 6,5-7). Essa relação da natureza encontra sua origem no mesmo livro do Gênesis, no capítulo 1, quando Deus, ao criar o homem, disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem e semelhança, e que eles dominem sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra” (Gn 1,26b).
“Mas Noé encontrou graça aos olhos de Deus” (Gn 6,8). O autor sagrado apresenta, nesta pequena frase que vem logo após o arrependimento de Deus pela criação do homem, o tema da justiça de Deus sobre o homem pecador e da misericórdia divina que salva o homem justo, no caso, Noé, “um homem justo, íntegro entre seus contemporâneos, e andava com Deus”(Gn 6,9b). Assim, Iahweh estabelece uma aliança com Noé, ordenando: “entrarás na arca, tu e teus filhos, tua mulher e as mulheres de teus filhos contigo. De tudo o que vive, de tudo o que é carne, farás entrar na arca dois[3] de cada espécie, um macho e uma fêmea, para os conservares em vida contigo. De cada espécie de aves, de cada espécie de animais, de cada espécie de répteis do solo, virá um casal, para os conservares em vida” (Gn 6,18-20).
Assim, os animais irracionais estão associados ao homem seja no castigo, seja na salvação, pois a corrupção humana estendeu-se para toda a criação. Daí Paulo, em sua carta aos Romanos, escrever: “De fato, a criação foi submetida à vaidade (...) na esperança de ela também ser libertada da escravidão da corrupção para entrar na liberdade da glória dos filhos de Deus. Pois sabemos que a criação inteira geme e sofre as dores de parto até o presente” (Rm 8,20-21).
Findo o dilúvio, baixadas as águas e saídos da arca todos as animais e pessoas que lá se encontravam, Deus estabelece uma aliança do Noé e com seus descendentes, repetindo as palavras que havia dito a Adão, dizendo-lhes que fossem fecundos, multiplicassem-se e enchessem a terra; entregou-lhes toda a criação (cf. Gn 1,28-30; 9,1-4). A nova criação aqui apresentada também não está fechada em si mesma, e a aliança não se limita a Noé, mas a toda sua descendência e a toda criatura, ficando, mais uma vez, a criação submetida ao destino do ser humano. Assim, mais uma vez o projeto de Deus apresenta-se como coletivo, destinado a uma comunidade e não a uma única pessoa.
Estabelecida, a partir de Noé, uma nova ordem no mundo, a terra é novamente povoada (cf. Gn 10).
“Todo o mundo se servia de uma mesma língua e das mesmas palavras.”. Assim se inicia o capítulo 11 de Gênesis, que narra a história da torre de Babel. Há, nessa passagem bíblica muito conhecida, três aspectos que merecem destaque:
1) O tema da torre está intimamente relacionado ao tema da cidade, cf. já visto na história de Caim e Abel. Há, portanto, como que a confirmação de que a sociedade urbana é uma das principais causas da opressão em que Israel se encontra, quando do exílio na Babilônia.
2) Babel está intimamente relacionada à Babilônia, a começar pela mesma raiz das duas palavras, bll; a construção da torre dá-se, segundo Gn 11,2, em uma vale na terra de Senaar, ou seja, onde se encontrava a Babilônia;
3) Pela tradição de Israel, a montanha é o lugar por excelência para o encontro com Deus (cf. Ex 3,1; 19,20; Dt 12,2; 1Rs 18,20ss...). Na Babilônia desenvolveu-se a arquitetura para construção de altas torres para o culto religioso, simbolizando as montanhas sagradas. Portanto, não eram montes naturais, mas erguidos por mãos humanas, com “pedras” confeccionadas pelo próprio ser humano, ou seja, o tijolo cozido, como é mencionado em Gn 11,3b.
A partir desses 3 aspectos destacados, podemos compreender o episódio da Torre de Babel como uma espécie de alegoria à dominação sócio-político-cultural-religiosa realizada pelo império babilônico contra outras nações, em particular contra Israel.
“Todo o mundo se servia de uma mesma língua e das mesmas palavras” (Gn 11,1). Esta primeira frase da narração do episódio da Torre é compreendida por muitos exegetas como sinal dessa dominação. A política babilônica retirava da terra dominada sua elite e a enviava para o exílio, obrigando-a a inculturar-se na Babilônia, enfraquecendo, assim, os laços constitutivos de um povo: cultura, língua, religião.
Foi isso exatamente o que aconteceu com Israel no século VI a.C., quando Nabucodonosor reinava na Babilônia e invadiu a Judéia.
Também o episódio da Torre de Babel, embora conste na Bíblia como anterior a Moisés e ao exílio na Babilônia, histórica e teologicamente refere-se ao período desse segundo exílio. Assim, se a montanha foi o local onde Iahweh se revelou a Moisés para dar-se a conhecer à humanidade por iniciativa própria e revelar a libertação do cativeiro no Egito (cf. Ex 3), a “falsa montanha”, ou seja, a torre que Babel construía, não visava o conhecimento de Deus, mas o domínio dos céus (“Vinde! Construamos uma cidade e uma torre cujo ápice penetre nos céus!” – Gn 11,4b-c) e o domínio dos povos (“Façamo-nos um nome e não sejamos dispersos sobre a terra” – Gn 11,4d)[4].
Portanto, pode-se ver no capítulo 11 do livro do Gênesis uma oposição entre o projeto de Deus apresentado a Moisés e o projeto babilônico. Iahweh dando-se a conhecer na montanha opõe-se à iniciativa humana de chegar aos céus; o projeto de libertação de Iahweh opõe-se à dominação sócio-político-cultural-religiosa babilônica. Essa oposição, que contraria os desígnios do Senhor, está expressa na reação de Iahweh à construção da Torre de Babel: “Ora, Iahweh desceu para ver a cidade e a torre que os homens tinham construído. E Iahweh disse: ‘Eis que todos constituem um só povo e falam uma só língua. Isso é o começo de suas iniciativas! Agora, nenhum desígnio será irrealizável para eles. Vinde! Desçamos! Confundamos a sua linguagem para que não mais se entendam uns aos outros’” (Gn 11,5-7).
Muitos estudiosos, hoje, lêem o atual processo de globalização do mundo à luz dessa passagem bíblica da Torre de Babel, considerando a globalização como contrária à vontade divina. A eliminação das culturas locais em favor de uma única cultura dominante impediria que o anúncio da Boa Nova pudesse se dar de forma plena. Somente na cultura de cada povo a revelação de Deus poderia ser acolhida, compreendida e vivida.
Assim, com o episódio da Torre de Babel (capítulo 11 do Gênesis) encerra-se a série de rompimentos do ser humano – e de suas conseqüências – a partir do que se convencionou chamar de pecado original (Gn 3): com Deus (Adão e Eva), com o próximo (Caim e Abel), com o povo (Babel) e com a natureza (Dilúvio). Nesta série de recusas humanas ao projeto comunitário de Deus, podemos perceber um paralelismo textual: inicia-se e termina com o ser humano procurando auto-divinizar-se; no centro desse paralelismo estão claramente apresentadas as conseqüências dessas atitudes humanas: egoísmo, inveja, ódio, morte. A partir do capítulo 12, com a história de Abraão (a qual iniciou este capítulo), tem início a aliança de Iahweh com a humanidade para resgatá-la da situação de pecado em que se encontra.
[2] Vale lembrar aqui Gn 4,17b: “[Caim] Tornou-se um construtor de cidade”, dado que ajuda a confirmar essa tese apresentada.
[3] Este é um relato sacerdotal; no relato javista, paralelo a este, que encontramos no início do capítulo 7 de Gn, Iahweh manda que Noé tome um casal dos animais impuros e sete pares dos animais puros.
[4] Em nota alusiva a este episódio, a Bíblia de Jerusalém (nota x a Gn 11,4c) apresenta o seguinte comentário: “A tradição se interessou pelas ruínas de uma dessas altas torres em andares, que se construía na Mesopotâmia como um símbolo da montanha sagrada e um repositório da divindade. Os construtores teriam desse modo procurado um meio de encontrar seu deus. Mas o javista vê nisso uma iniciativa de um orgulho insensato. Este tema da torre combina com o da cidade: é uma condenação da civilização urbana”.
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