I.2 - Criação: a vida comunitária de Israel é para todos os povos

Como o presente trabalho trata-se de uma síntese teológica conduzida pelo tema do projeto comunitário de Deus para a humanidade, não é possível apresentar toda a riqueza e detalhes da revelação divina, presentes nas Sagradas Escrituras. Assim, continuaremos, como no primeiro capítulo, a resumir a história da Revelação sempre que necessário, até chegarmos ao ponto que interessa a nosso propósito.
Diversos textos apresentam o cumprimento da promessa de Deus a Israel, com a chegada à Terra Prometida e a posse da terra (Js 1ss), prosseguindo com os relatos dos conflitos com os habitantes locais (Js 6ss), a divisão da Terra Prometida entre as 12 tribos (Js 13ss) , o período dos juízes (Jz), a instituição da monarquia em Israel (1Sm 8ss), a história da sucessão do rei Davi e de seus sucessores (1-2Rs; 1-2Cr).
A história da monarquia em Israel é vista como o início da ruína do povo eleito por Iahweh e sinal da rejeição desse povo à Aliança: “Iahweh, porém, disse a Samuel: ‘Atende a tudo o que te diz o povo, porque não é a ti que eles rejeitam, mas a mim, porque não querem mais que eu reine sobre eles. Tudo o que têm feito comigo desde o dia em que os fiz subir do Egito até agora - abandonaram-me e seguiram outros deuses - assim fizeram contigo. Portanto, atende ao que eles pleiteiam. Mas, solenemente, lembra-lhes e explica-lhes o direito do rei que reinará sobre eles’” ( 1Sm 8,7-9).
Os textos do Antigo Testamento vão-nos mostrando a constante infidelidade do povo de Israel ao projeto de Deus e à Sua Aliança. Assim, no tempo do rei Sedecias c. 722 a.C., que a exemplo de seus sucessores “fez o mal aos olhos de Iahweh, seu Deus” (2Cr 36,12a.), quando o rei da Babilônia, Nabucodonosor, invade a Palestina, derruba as muralhas de Jerusalém, incendeia os palácios, toma para si os tesouros do Templo e deporta para a Babilônia “todo o resto da população que escapara da espada” (2Cr 36,20b), obrigando-a “a servir a ele e a seus filhos” (2Cr 36,20c), Israel faz a experiência mais marcante desde o Êxodo, e a mais traumatizante de sua história: o povo libertado do cativeiro no Egito vê-se agora escravo na Babilônia. E começa a questionar-se: a promessa de Deus a nossos antepassados terá sido quebrada? Ele nos prometera esta terra e a liberdade. Perdemos ambas. Por que caímos novamente numa situação de opressão? Quem ou o que foi responsável por esta situação em que nos encontramos?
O povo cativo e oprimido, que fizera tão intensamente a experiência com o Deus Libertador, aprofunda teologicamente antigas tradições do Deus Criador. Volta-se, portanto, às origens do mundo para tentar compreender a situação presente. É a partir da experiência do exílio na Babilônia que Israel faz a experiência profunda com o Deus Criador. Histórica e existencialmente, portanto, a teologia da Criação é posterior à teologia da Libertação. Portanto, se Deus é o criador de todas as coisas, a teologia da Criação afirma implicitamente a universalidade da salvação.
Há no livro do Gênesis duas narrativas da criação: uma de origem sacerdotal (Gn 1) e outra de origem javista (Gn 2,4bss). A primeira mostra Deus criando todas as coisas existentes no universo; “e viu que isso era muito bom”
[1]. A segunda, centra-se na criação do ser humano e na situação em que se encontrava a humanidade no Paraíso, quando vivia junto a Deus. Ali a humanidade fazia a experiência perfeita da liberdade. Tanto uma narrativa quanto a outra permitem a Israel, exilado na Babilônia, compreender sua situação presente.
O relato sacerdotal, presente em Gn 1, lança uma luz sobre a história passada de Israel e sua infidelidade ao Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó. O contato com outros povos fizera com que Israel esquecesse sua Aliança com o Senhor, cultuasse deuses pagãos, que na verdade eram divinizações do que o único e verdadeiro Deus criara, e rejeitasse a soberania, o senhorio do Senhor sobre seu povo, instituindo a monarquia. O relato sacerdotal leva Israel a compreender, implicitamente, o absurdo que é cultuar como deus o que é criatura, e deixar-se reger por seres humanos, relativizando o senhorio de Deus.
Percebe-se, no relato sacerdotal, que Deus cria todas as coisas e todos os seres, devendo, portanto, ser adorado como Deus por todos os povos e nações, e não apenas por Israel.
Em Gn 2, há o que podemos chamar de uma “proto-história”, narrando a situação de liberdade em que Deus criou o ser humano. Na proto história da humanidade, apresenta-se as relações básicas do ser humano: com Deus, com o próximo, com a natureza. Esta situação apresentada permite a Israel refletir sobre sua situação atual, de não liberdade, da qual deve ser libertada, para se cumprir, assim, o desígnio de Deus, que criou a humanidade para a liberdade e não para a escravidão; criou o ser humano para administrar a natureza e não para ser submetido e escravizado por outros homens. “Com a ‘proto-história’, o Javista pretende, a partir da constatação da situação ambígua em que o povo e todo homem singular se encontram, responder à pergunta tão legítima pela origem de tal situação. E isto com o objetivo bem prático de ver como sair deste estado de não-salvação para a vivência da salvação”
[2].

[1] Gn 1,4a.10b.12c.18b.21b.25b.31b.

[2] A. G. Rúbio, Unidade na Pluralidade, p. 158.

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