I. O Povo de Israel: embrião comunitário do Reino de Deus
I.1 - Eleição-Aliança: Deus deu um projeto comunitário para o seu povo
Iahweh disse a Abrão: “Sai da tua terra, da tua parentela
e da casa de teu pai, para a terra que te mostrarei.
Eu farei de ti um grande povo, eu te abençoarei,
engrandecerei teu nome; sê uma bênção!
Abençoarei os que te abençoarem,
amaldiçoarei os que te amaldiçoarem.
Por ti serão abençoados todos os clãs da terra”. (Gn 12,1-3)
O Magistério da Igreja nos ensina que “Deus, no seu amor, planejando e preparando com solicitude a salvação de todo o gênero humano, escolheu por especial providência um povo a quem confiar suas promessas”
Sabemos que as Sagradas Escrituras nasceram dentro de uma comunidade visando a própria comunidade, devendo, portanto, ser lidas e interpretadas à luz da vida comunitária.
O Deus que estabelece a Aliança com Abraão é um Deus comunitário. Embora El Shaddai (o antigo nome divino da época patriarcal[2]) faça uma aliança com Abraão - “Eu instituo minha aliança entre mim e ti...” (Gn 17,2) -, a resposta de Abraão é movida pela fé no Deus que será o Deus de sua posteridade: “Quanto a ti, observarás a minha aliança, tu e tua raça depois de ti, de geração em geração. E eis que a minha aliança, que será observada entre mim e vós, isto é, tua raça depois de ti: todos os vossos machos serão circuncidados”. (Gn 17, 9-10). Percebe-se aqui que Deus escolheu um homem, mas não limita sua aliança apenas a ele; nota-se que o Senhor pede que a descendência de Abraão, expressa pelo pronome “vós”, continue a cumprir a aliança.
Como se observará em todo o Antigo Testamento, desde Abraão, não existe uma fé particular, privada, isolada, mas sim a fé de um povo, no caso, o povo escolhido por Deus para revelar-se economicamente a toda a humanidade. Por isso, Abraão, considerado o “Pai de todos os crentes”, em seguida a esta aliança com El Shaddai, “tomou seu filho Ismael, todos os que nasceram em sua casa, todos os que comprara com seu dinheiro, todos os machos dentre os de sua casa e circundou a carne de seu prepúcio, nesse mesmo dia” (Gn 17, 23). Com este “rito” comunitário, a fé de Abraão torna-se também a fé da sua casa, de sua descendência, do povo que dali nasceria.
A partir dessa Aliança, inicia-se a revelação do projeto comunitário de Deus.
Deus cumpre sua promessa a Abraão e lhe dá uma descendência. O livro do Gênesis nos narra o nascimento de Ismael e de Isaac (cf. Gn 16 e 21). Deste último, nascem Esaú e Jacó (cf. Gn 25). Jacó, após a luta com Deus (cf. Gn 32, 23ss), tem seu nome mudado para Israel; tem 12 filhos, que darão início às 12 tribos de Israel, sendo que o mais novo, José, é vendido como escravo pelos irmãos enciumados (cf. Gn 37, 12ss), indo parar no Egito (cf. Gn 37 36), onde conquista a confiança do Faraó (cf. Gn 41) e torna-se administrador do palácio e do povo (cf. Gn 41, 40). Através de José, durante um grande período de seca e fome, seu pai Israel, seus irmãos e toda sua descendência passam a morar no Egito (cf. Gn 46).
Logo no início do Livro do Êxodo, conta-se que, após a morte de José, de seus irmãos e de toda aquela geração, “os filhos de Israel foram e se multiplicaram; tornaram-se cada vez mais numerosos e poderosos, a tal ponto que o país ficou repleto deles. Levantou-se sobre o Egito um novo rei, que não conhecia José. Ele disse à sua gente: ‘Eis que o povo dos filhos de Israel tornou-se mais numeroso e mais poderoso do que nós. Vinde, tomemos sábias medidas para impedir que ele cresça; pois do contrário, em caso de guerra, aumentará o número de nossos adversários e combaterá contra nós, para depois sair do país’. Portanto impuseram a Israel inspetores de obras para tornar-lhe dura a vida com os trabalhos que lhe exigiam” (Ex 1, 8-11a). Esta passagem inicial estabelece a ligação do Livro do Êxodo com a primeiro livro da Bíblia, o Gênesis.
Nota-se, nesta passagem que conta o início da opressão que o povo de Deus sofrerá no Egito, o caráter metonímico e comunitário que assume o nome de Israel: de “filhos de Israel”, o povo passa a ser chamado de “Israel”; o nome individual passa a ser um nome coletivo.
“Muito tempo depois morreu o rei do Egito, e os filhos de Israel, gemendo sob o peso da servidão, clamaram; e do fundo da servidão o seu clamor subiu até Deus. E Deus ouviu os seus gemidos; Deus lembrou-se da sua Aliança com Abraão, Isaac e Jacó. Deus viu os filhos de Israel, e Deus conheceu...” (Ex 2, 23-25).
O Deus de Israel não esquece seu povo - Ele “ouve”, “lembra-se”, “vê” e “conhece”, verbos que em um primeiro momento parecem indicar uma certo distanciamento de Deus em relação a Israel - e manifesta-se na escravidão, a fim de romper a cadeia da opressão no Egito, pois enquanto seu povo estiver sem liberdade, o Senhor não poderá ser cultuado, uma vez que isso só acontece na liberdade. Daí o Senhor Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó manifestar-se a Moisés no monte Horeb (cf. Ex 3,1ss) e confiar-lhe uma missão em favor de todo o Israel (cf. Ex 3,7ss). Já aqui, os verbos que se referem à ação do Senhor O colocam próximo a seu povo”, inclusive sendo apresentado em primeira pessoa, ou seja, palavras pronunciadas pelo próprio Deus: “vi”, “ouvi” e “desci”; que se ligam ao verbo “enviar”, referente à missão de Moisés: “Vai, pois, e eu te enviarei a Faraó, para fazer sair do Egito o meu povo, os filhos de Israel”.
Como no caso de Abraão, Deus escolhe uma pessoa - aqui, Moisés - para fazer cumprir Sua Aliança com todo Israel.
Ante a insegurança de Moisés para cumprir a missão que lhe estava sendo confiada - “Quem sou eu para ir a Faraó e fazer sair do Egito os filhos de Israel?” (Gn 3,11b) - Deus revela o sinal de que Ele o enviara: “quando fizeres o povo sair do Egito, vós servireis a Deus nesta montanha” (Gn 3,12c). A conquista da liberdade para servi-lO é o sinal da presença de Deus em meio ao povo. Em outras palavras, revela-se, pois, o projeto de Deus: libertar seu povo para que este o sirva em liberdade.
E para mostrar não só que Deus estava com Israel, mas que era o único e verdadeiro Deus, revela o Seu nome: Iahweh / EU SOU. No Egito havia o culto a dezenas de deuses, a idolatria que gerou a injustiça e a opressão. Ao revelar Seu nome - e para os hebreus o nome revela a identidade de quem o leva consigo - alguns exegetas acreditam que Deus está revelando sua identidade em oposição aos falsos deuses egípcios: “EU SOU opõe-se aos deuses que não o são, mas que foram, pelos homens, alçados à condição divina. O sinal dessa verdade é a liberdade: os falsos deuses levam o povo à escravidão, enquanto que o único e verdadeiro Deus o conduz à libertação. E mais: a revelação do nome divino significa que Iahweh é (“EU SOU”) junto a seu povo, caminha a seu lado.
A partir dessa revelação tem início o confronto entre o poder opressor do Faraó e a mão libertadora de Iahweh, confronto esse que se observa na descrição da conhecidas “dez pragas do Egito” - 1. a água transformada em sangue (cf. Ex 7,14-25); 2. as rãs (cf. Ex 7,26 - 8,11); 3. os mosquitos (cf. Ex 8, 12-15); 4. os mosquitos (Ex 8-16-28); 5. a peste dos animais (cf. Ex 9, 1-7); 6. as úlceras (cf. Ex 9, 8-12); 7. a chuva de pedras (cf. Ex 9,13-35); 8. os gafanhotos (Ex 10,1-20); 9. as trevas (cf. Ex 10,21-29); 10. a morte dos primogênitos egípcios (cf. Ex 12, 29-34), prenunciado em Ex 11, 1ss, que indica o extermínio da descendência do poder faraônico, opondo-se, assim, à promessa de Iahweh a Abraão de que as descendência deste seria incontável como a poeira da terra (cf. Gn 13,16) e numerosa como as estrelas do céu (cf. Gn 15,5).
Com a morte dos primogênitos egípcios, Israel, o povo oprimido, sai do Egito (cf. Ex 12, 37ss) e celebra a Páscoa (cf. Ex 37, 43-51). Esta e a passagem pelo mar dos Juncos “a pé enxuto” (cf. Ex 14) completam o processo de saída de Israel do Egito, processo esse que só se concluirá com a posse definitiva da terra, em cumprimento à promessa de Iahweh feita a Moisés: “Por isso desci a fim de libertá-lo da mão dos egípcios, e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e vasta, terra que mana leite e mel...”(Ex 3,8); isto é, a terra em que o povo possa viver em liberdade e não na escravidão.
[1] Constituição Dogmática Dei Verbum sobre a Revelação Divina, n. 14.
[2] Cf. Bíblia de Jerusalém, nota o ref. Gn 17,1.
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