INTRODUÇÃO

O presente trabalho de síntese teológica, apresentado ao Instituto de Filosofia e de Teologia Paulo VI, de Nova Iguaçu, surgiu a partir da confrontação da leitura, estudo e reflexão bíblicos com a realidade do mundo. Vivemos num mundo profundamente egocêntrico, individualista, que pretere o bem comum em favor do indivíduo. O importante, hoje, é a satisfação da pessoa individual a qualquer custo, não se levando em conta o aspecto social.
Essa característica do mundo moderno e contemporâneo apresenta desafios imensos ao nosso trabalho de evangelização, que exige uma reflexão séria e profunda a fim de que o projeto de Cristo não se perca. Neste mundo que incentiva projetos individuais e auto-realizações pessoais, como podemos falar de injustiça social e de suas conseqüências? Como articular fé e vida, mantendo a identidade cristã dentro da estrutura cultural moderna?
Assim, este trabalho procura refletir justamente o aspecto comunitário do projeto de Deus para toda a humanidade. Naturalmente não vamos chegar à solução para os desafios de nosso tempo, mas pretende-se apresentar subsídios que apontem para a impossibilidade de concretização do Reino de Deus entre nós fora do âmbito comunitário.
Como não poderia deixar de ser, o Antigo Testamento é o ponto de partida de nossa reflexão, compondo o nosso primeiro capítulo. A Aliança de Iahweh com Israel, longe de ser uma eleição excludente dos povos não contemplados nessa eleição, é como o embrião da universalidade salvífica de Deus. Procuramos, assim, iniciar justamente com a Aliança de Deus não com um indivíduo, mas com todo um povo, já demonstrando desde o início o aspecto comunitário da salvação operada por Deus. O Deus que salva é aquele que liberta; essa primeira experiência de Israel com seu Deus o leva a refletir sobre a infidelidade de todo o povo à Aliança, quando se encontra exilado na Babilônia, descobrindo, nessa experiência traumática, a universalidade de Deus como criador de todas as coisas. A partir dessa revelação de Deus Criador, Israel compreende as conseqüências do pecado humano, que vai atingindo todas as esferas da vida: pessoal, familiar, social e cósmica. A pregação dos profetas, na última parte do primeiro capítulo, denuncia a situação de injustiça social contrária ao projeto de Deus e lança uma luz para a compreensão da situação exílica em que o povo vai-se encontrar.
O segundo capítulo trata do Reino de Deus revelando-se plenamente em Jesus Cristo. Já no momento da concepção de Jesus, após o fiat de Maria, a Encarnação justifica-se objetivando o Reino, o comunitário. A pregação de Jesus durante sua vida pública procurou sempre destacar a necessidade de viver-se intensamente a vida comunitária libertadora, desapegando-se das estruturas opressivas e do individualismo. Destacamos de modo especial o aspecto libertador das parábolas de Jesus como elemento de transformação do mundo. A Ressurreição apresenta-se, então, como um evento que realiza plenamente as promessas de Iahweh a seu povo e abre essa promessa a toda a humanidade. Finalmente, a vinda do Espírito Santo coloca os discípulos de Jesus como mensageiros da Boa Nova a toda a humanidade, em todos os lugares da terra.
O último capítulo procura apresentar a vivência do Reino de Deus na terra, no aqui e no agora da existência humana a partir da Igreja. Narra as primeiras experiências comunitárias cristãs e a novidade que isso representou. A breve reflexão sobre os dogmas procura demonstrar que sua existência deve-se, sobretudo, à necessidade de haver uma fidelidade à revelação de Deus nas Sagradas Escrituras, a fim de que a comunidade não incorra em erros doutrinais e, com isso, se divida. Na parte sobre os Sacramentos, tratados também de forma sucinta, procura-se destacar sua importância como elementos unidade da comunidade cristã e de sua relação com Cristo. Por fim, a última parte vai procurar demonstrar que a salvação é um dom de Deus comunitário e não individual.
Como já foi dito, não se pretende com este trabalho apresentar soluções para os desafios que o mundo hodierno apresenta. Mas a reflexão sobre a dimensão comunitária do Reino de Deus com certeza nos ajudará no trabalho pastoral a enxergar pistas concretas para a vivência desse Reino apresentado durante toda a Revelação, desde o Antigo Testamento, nas situações concretas de nossas comunidades.

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