III.3 - Os Sacramentos fazem a Igreja ser sacramento do Reino
Os Sacramentos são como que “momentos” privilegiados do encontro entre Deus e o ser humano; porém o encontro entre ambos não pode ser reduzido apenas a estes momentos.
Embora Santo Agostinho tenha enumerado 304 “sinais sagrados”, a partir do século XII começou-se a destacar 7 gestos primordiais como sacramentos, culminando com o Concílio de Trento, em 1547, definindo solenemente “que os sacramentos da nova Lei são sete, nem mais, nem menos(...)”. Naturalmente, o número 7 carrega toda uma simbologia em si: é o número da totalidade, da plenitude acabada e perfeita; significa a universalidade. O número 7 é, ainda, formado por dois outros números perfeitos: o 3[1] – símbolo do absoluto (da Santíssima Trindade), da transcendência – e o 4 – que representa o cosmos, o mundo, o imanente com seus 4 elementos (terra, água, fogo e ar). O número 7 significa, assim, a união do imanente com o transcendente, o encontro entre Deus e o ser humano.
É sempre importante lembrar que o sacramento primordial e decisivo é Jesus de Nazaré, que através de sua humanidade, de seu gesto, de sua liberdade, de sua vida, de sua morte e de sua ressurreição revela a presença do Pai e do Reino.
Também importante destacar é que a eficácia dos sacramentos cristãos se dá de forma concreta, ou seja, pela incorporação da pessoa crente à comunidade. Em outras palavras, a eficácia dos sacramentos não se realiza apenas no plano interior e invisível, ou simplesmente atribuída a um rito juridicamente válido, mas tem uma clara projeção comunitária.
Devido a este aspecto comunitário, precisamos ter em mente que os sacramentos não são ritos individuais, mas ritos da Igreja.
Estabelecendo uma linha de raciocínio, vamos lembrar da Ressurreição de Jesus, que constituiu o primeiro e fundamental anúncio feito pelos primeiros cristãos. A Igreja surge a partir do anúncio desse querigma, ou seja, houve quem tomasse conhecimento desse evento único na história da salvação como testemunhas, quem aceitasse esse testemunho (comunidade de fé) e quem o transmitisse às gerações futuras. Portanto, só na intercomunhão solidária é possível fazer a memória de Jesus, caso contrário esse evento se perderia na história.
Por meio da intercomunhão solidária, a comunidade unida – a Igreja – participa do Mistério de Cristo, como Corpo do Senhor Ressuscitado. Através dos sacramentos, a Igreja media a participação do crente no Corpo de Cristo[2].
Resumidamente, apresentamos esse processo de mediação.
O Batismo e a Confirmação introduzem o crente na Igreja e o incorpora a Cristo;
A Penitência, reconciliando o crente com a Igreja, o reconcilia com Deus em Cristo;
A Ordem, dando função na Igreja, assimila o ministro ordenado a Cristo Cabeça;
A Unção dos Enfermos, fazendo o cristão enfermo afastado da Igreja unir-se novamente a ela, reconforta-o em Cristo;
O Matrimônio, constituindo homem e mulher em Igreja “doméstica”, assimila-os ao mistério da aliança de Deus com a humanidade em Cristo;
A Eucaristia, tornando visível o que é ser Igreja, dá a vida em Cristo e une os fiéis ao Cristo vivo e ressuscitado.
Percebe-se, portanto, que os sacramentos cristãos se destinam aos que aderiram visivelmente a Cristo e vivem assim a sua fé, assumindo o seguimento de Jesus na comunidade cristã; e existem porque essa vida de fé comporta experiências tão profundas e decisivas para a salvação do ser humano, que não podem ser expressos e comunicar-se a não ser por meio de símbolos. Devemos ter sempre em mente que o querigma cristão (morte-ressurreição de Cristo) é o único sagrado de nossa história e que qualquer outro tipo de mediação (como é o caso dos sacramentos da Igreja) só tem sentido cristão na medida em que aponta para o único mediador, porque é por Ele que temos acesso ao Pai (“o véu do Santuário se rasgou em duas partes, de cima a baixo”[3] – Mt 27,51; Mc 15,38). As necessidades de outras mediações são, portanto, necessidades antropológicas e, como tais, são importantes, porém relativas (cf. Hb 8,1-2. 6; 9,11-12).
O primeiro, primordial e decisivo sacramento é, portanto, Jesus de Nazaré que, através de sua humanidade, de seu gesto, de sua liberdade, de sua vida, de sua morte e de sua ressurreição manifesta e revela a presença do Pai e do Reino. O Concílio Vaticano II ensinou que “a Igreja é em Cristo como que sacramento, sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano” (LG 1). A Igreja está no mundo como sinal, segundo as palavras de Paulo VI “ao mesmo tempo opaco e luminoso de uma nova presença de Jesus. Sacramento de sua partida e de sua permanência” (Evangelii Nuntiandi 15).
Assim como o próprio Cristo, a Igreja está a serviço do homem novo, como instrumento da construção do Reino.
[1] O número 3, por sua vez, é formado pelo 1, que significa a origem, o uno; e pelo número 2, que representa o outro, o fundamento da multiplicidade. Portanto, o 3 é a síntese de 1 e 2.
[2] Cabe aqui diferenciar “processo de salvação” e “mediação de salvação”. O primeiro refere-se à história universal da salvação; toda pessoa que aceita a salvação que Deus lhe oferece, através de sua consciência, de seus semelhantes, de sua cultura, de sua religião, está dentro do processo de salvação oferecida por Deus, quer conheça a Cristo ou jamais tenha ouvido falar nele. “Mediação de salvação” designa a presença da salvação na dimensão histórica e palpável da Igreja, no conhecimento e reconhecimento explícito de Cristo como revelação do Pai. A mediação da salvação é, portanto, mais restrita que o processo de salvação. O processo salvífico é mediado por Cristo. A Igreja se situa no nível da mediação de salvação.
[3] No Templo, em Jerusalém, havia um véu que dividia o espaço sagrado onde só o sumo sacerdote podia ter acesso. Só ele e mais ninguém era o mediador entre a terra e o céu. Com Jesus, “rasga-se o véu do Santuário”, ou seja, a partir de agora o único mediador é o próprio Cristo.
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