III.4 - A Graça: o Reino comunitário acontecendo em busca de plenitude (Escatologia)

Como dissemos na parte 3 do segundo capítulo deste trabalho, o aspecto mais importante da Ressurreição é que se trata não da ressurreição individual e única de Jesus, mas da garantia da ressurreição para todo o gênero humano no Reino definitivo e comunitário que a Ressurreição do Senhor nos garante, conforme nos afirmou Paulo em uma de suas epístolas: “Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram” (1Cor 15,20b). Isso permite à nossa fé afirmar que à Ressurreição de Jesus segue-se a nossa própria ressurreição.
Com a Ressurreição de Jesus tem início a plenitude dos tempos, pois nela começa a ressurreição dos homens (cf. At 26,23; Cl 1,18; Hb 1,2; 1Cor 10,11). O Jesus histórico e Ressuscitado concede à história humana uma determinação qualitativamente nova, uma vez que a nossa humanidade, através do Verbo encarnado, está na plenitude de Deus: Jesus é alguém como nós (cf. Hb 2,11), que conhece o sofrimento como nós (cf. Hb 5, 7-8), provado em tudo como nós, menos no pecado (cf. Hb 4,15) e que vive a plenitude escatológica (Hb 1,3; 10,12; 12,2). Este é, portanto, o fundamento da nossa esperança: um de nós já chegou à plenitude; e se ele chegou, também nós podemos chegar.
A encarnação de Jesus nos permite compreender que a escatologia se faz presente na nossa história quando assumimos radicalmente a nossa condição humana e não quando fugimos dela. A práxis e a pregação de Jesus ensinou que o mais importante é a oferta que o ser humano faz de si própria e da sua vida, e não apenas das obras (cf. a história do fariseu e do publicano – Lc 18, 9-14).
Quando falamos de “escatologia”, falamos da glorificação da história individual e da história coletiva, mas não de um juízo particular e de um juízo universal como dois momentos; são, na verdade, dois aspectos: é juízo universal, porque julga a universalidade da ação da pessoa humana; e é particular, porque cada pessoa é considerada individualmente. Também não se trata de um juízo ahistórico, mas histórico e final, porque a glorificação do juízo terrestre acontece a cada momento da história individual e coletiva. E outras palavras, a escatologia é vista como a glorificação de uma história individual e de uma história coletiva, de uma história de amor que se dá dentro das relações sociais.
Essa glorificação da história individual e coletiva acontece através da resposta humana à iniciativa divina, gratuita e amorosa, expressa na obra salvífica de Deus. A graça de Deus resume a total atividade de salvação em Jesus Cristo. Todo o agir divino está voltado para o agraciamento e a salvação do ser humano e orientado para a vinda do Reino de Deus.
O Reino de Deus é pura graça, oferecida mediante uma iniciativa exclusivamente divina. O ser humano é livre diante dessa oferta, podendo assumi-la ou rejeitá-la com igual responsabilidade. Sendo o Reino absoluta gratuidade, é impossível ao ser humano adquirir, por seus méritos ou por sua iniciativa, esse dom que lhe é oferecido.
A graça dá ao ser humano a participação na filiação divina de Jesus, resultando daí uma relação de amor e confiança. A pessoa de Jesus é a graça salvífica de Deus, que insere o ser humano e o mundo no evento escatológico da salvação realizada nele.

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